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Gatos e outros tipos de estofos
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Quando me vejo ao espelho, de quem são aqueles olhos que me olham? De onde vieram estes lábios com que te beijo todos os dias? Estes cabelos que aqui tenho, herdei-os de onde e quando? De que filhos de outros filhos me vieram estas memórias? Pedaço após pedaço, descubro que não sou ninguém e que aquele que aqui está apenas o está por empréstimo.

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  • Domingo, Dezembro 03, 2006

    A Maria Carriça

    J

    á é hábito, esta nossa maneira pacóvia de andarmos por aí a ver isto e aquilo nos países estrangeiros e abrirmos a boca de espanto, que nisto de habituações não há melhor do que aquelas que se dão ares de importância andarem pelas terras dos brasis a visitarem museus de língua portuguesa e ah, oh, que bonito, temos que ter um destes lá em Portugal, vai daí espalha-se os tarecos que andam aos trambolhões num museu que não interessa a ninguém por aqui e por ali para arranjar espaço para copiar o que se viu lá fora, vai um outro aos nortes europeus e ah, oh, mas que escolas tão eficientes, que professores tão dedicados, que isto, que aquilo, temos que copiar isto lá para Portugal, melhor seria levarem também os alunos, as famílias e o resto, e como resultado trata-se da saúde aos professores que vai havendo por cá, vai-se lá fora ver os comboios, ah, oh, que belos comboios, que rápidos, que modernos, temos que ter coisas destas a andar pelo Portugal fora, assim como assim sempre se ganha uns minutitos na viagem entre Lisboa e Porto e faz-se boa figura, de aeroportos o melhor é nem falar, que grandes, que esplêndidos, que confortáveis esses por onde se passa nas cidades europeias, americanas, asiáticas, ah, oh, precisamos de um destes e é já, nem que caia o Carmo e a Trindade havemos de construí-lo, nem que chovam canivetes, se ficarem mais uns quantos aleijados paciência, vamo-lhes aos bolsos de qualquer maneira, que não somos de discriminações, pois claro, tributamos mais uma coisita ou outra, pespegamo-lhes com mais um ou dois por cento nos impostos, já estão acostumados e nem dão pela diferença, agora dê por onde der temos que mostrar aos estrangeiros que por cá também podem encontrar coisas modernas, tal e qual as que têm ao pé de casa deles, nem mais nem menos, sem tirar nem pôr, quer dizer, se tirarmos mais um bocadinho não é por aí que o gato vai às filhós, ora essa, não há mas é maneira de irmos nós lá fora, por exemplo à terra dos teutões, e afirmarmos alto e bom som, com trejeitos de admiração, ah, oh, que belos governantes que por cá têm, não há maneira de os exportarem lá para a nossa terra, que os que lá temos não nos parecem nada que valha a pena sustentar?

    Posted by: Rezendes / Domingo, Dezembro 03, 2006
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