Desde que entrara para o jornal, já lá iam alguns anos, o Carlitos encarregara-se, ou melhor tinham-no encarregado, da secção de obituários, tarefa que levava a peito e que exercia com todo o rigor, face aos dividendos que o matutino obtinha e cuja responsabilidade não se cansava de apregoar aos colegas, que o mimoseavam com epítetos como gato-pingado, vade retro, pretérito perfeito, e outras preciosidades no género, e cuja secretária na redacção era habitualmente referida como o cantinho do Lázaro, a botica das urnas, alto de São João ou colina dos prazeres, uma vez até, por partida, tinham-lhe metido ali um caixão, um dos verdadeiros, que lá na redacção havia quem tivesse conhecimentos numa funerária, se bem que não se percebe bem para que é que queremos conhecer alguém que trabalhe numa funerária, se quando precisarmos já nem sabemos que precisamos, mas uma pessoa também não vai deixar de conhecer alguém só porque trabalha numa funerária, olha, trabalhas com os mortos, então pronto, já não te conheço, conhecia-te dantes, mas agora já não sei quem és, as coisas não funcionam assim, pelo menos tenho para mim que não, está-se mesmo a ver que o Carlitos não achou piada nenhuma à brincadeira, o certo é que lá fazia o seu trabalho com todo o esmero, compunha obituários com uma antecedência razoável para as figuras mais famosas da nossa praça e das praças alheias, para o caso de acontecer algo de inesperado e não ser apanhado desprevenido, com uma biografia completa, com referências à obra feita ou desfeita, historial da família, mas sem emitir juízos críticos ou de valor acerca da personalidade, que isso deixava para outros colegas, não se ia pôr a ultrapassar as suas funções, que não queria que o tivessem por metediço nem muito menos por pedante, e fazia por antecipação uma pesquisa das imagens em arquivo acerca da pessoa, não fosse dar-se o caso de dar-lhe a travadinha de um momento para o outro e depois terem que andar que nem uns doidos a vasculhar no arquivo à procura de fotografias para ilustrarem o artigo.
Quando alguém importante estava mesmo prestes a entregar a alma ao criador, ficava cheio de ansiedade, roía as unhas todas que encontrasse pela frente, se alguém lhe emprestasse as suas marchavam também, revia o texto vezes sem conta para ver se não estava a falhar nada, imaginava títulos bombásticos para a notícia, embora não fosse da sua conta, que isso eram competências lá dos superiores da redacção, e quando finalmente lá se dava o óbito estava mais do que pronto para fornecer os dados todos, na hora, e depois ficava com um enorme melão porque lhe escortanhavam aquilo tudo, estragavam-lhe a prosa, mas como já estava habituado ultrapassava depressa aqueles repentes de frustração, e então punha-se a fazer uma análise crítica ao que tinha sido publicado, a chamar nomes, lá no íntimo, aos colegas jornalistas, e o facto de tecer comparações entre o que era publicado e o original tinha para si como um invulgar raciocínio filológico, digno de uma qualquer tese de mestrado ou até mesmo do doutoramento mais exigente, o trabalho tinha-se-lhe colado à alma, já não passava sem defuntos, sem os elogios fúnebres, sem as últimas palavras, sem os jazigos de família, os crematórios, as sepulturas rasas, sem as valas comuns, quando um dia se reformou, a contragosto, é preciso que se diga, levou para casa ficheiros e ficheiros de gente morta, metidos em fúnebres pastas que arquivava com extrema minúcia e com grande desvelo, eram os seus mortos, dizia, tinha-lhe subido à cabeça, e passava os dias a percorrer os cemitérios à procura das campas e dos jazigos das suas referências biográficas, onde abria uma última entrada com os dados do local onde se encontrava o cadáver, como se já não soubesse viver entre os vivos e nos mortos encontrasse consolo para o fim que se aproximava.