Tenho um casal amigo que resolveu, para contentar a filha, que é minha afilhada, adquirir um animal de estimação, só que não se decidiu nem por cachorro, que dava trabalho levá-lo à rua várias vezes por dia, dar-lhe banho, e tudo o resto de que um cão necessita para viver uma vida decente, e muito menos por um gato, que o maior receio era que desse cabo dos cortinados, dos sofás, coisas muito prezadas lá por casa e que, diga-se de passagem, creio que custaram os olhos da cara, sobretudo os cortinados, bastante bonitos por sinal, mas que foram de facto caríssimos, pelo menos é o que eu acho, que nisto de cortinados não sou assim tão especializado quanto isso e, a julgar pelos anos que passaram desde que tirei uns antigos cá em casa sem que tivesse voltado a pôr outros a substituir os que lá estavam, bem se pode avaliar quão atento sou a esse assunto.
Pois bem, o animal escolhido foi um coelho, e é exactamente por estarmos na Páscoa que me lembrei de escrever sobre o bichinho, que é aliás uma bichinha, uma coelha branquinha, de olhos encarnados, a quem deram o nome de Sissi, não sei bem se sob a influência da imperatriz da Áustria se por outro motivo qualquer, mas a dita coelha, que é de raça anã, passa a vida a comer e já cresceu bastante desde que lá fixou residência, o que me leva a pensar que isso de ser de raça anã deve ser uma grande tanga para não assustar os potenciais clientes das lojas de animais com o tamanho que esses bichos podem vir a ter, e além do mais a bicha, por muito que se queira, poderá ser limpa e fazer as suas necessidades na sua gaiolita, mas tenho cá para mim que de vez em quando se descuida um bocado, embora tenham tentado ensiná-la, como se faz com os gatos, a utilizar a sua casa de banho e não a fazer da casa inteira uma enorme plantação de dejectos.
Não reparei ainda que a coelha andasse a pôr ovos na Páscoa, nem de chocolate nem de outro tipo, francamente que não, que isso é mania de países onde não devem conhecer lá muito bem como funciona o aparelho reprodutor dos coelhos, por muito que se queira vir com a cantiga de que o coelho e o ovo são ambos símbolos da fertilidade, da abundância, e outra conversa fiada no género, que para enganar o próximo aquela gente de origem anglo-saxónica é especialista, não viesse esse hábito de tempos recuados, em que levavam colónias de borla à conta de casamentos e outros arranjos semelhantes, deixando os seus grandes aliados a ver navios, que foi coisa que muito vimos desde que nos habituámos a olhar para o mar e a ver ir-se tudo quanto Marta fiou, coitada da referida Marta, que tanto trabalhou para nada, que estes portugueses sempre foram uns mãos largas, se houver um paraíso para os beneméritos devemos ter um bom cantinho reservado, de certezinha absoluta, a não ser que esse cantinho seja dedicado aos tansos, e nesse caso lá acabará por ir parar o país inteiro.
Acabo desejando uma boa Páscoa, mesmo para quem não acredita nessas coisas e apenas aproveita a benesse das férias, que duvido que os cépticos se encontrem a trabalhar enquanto os outros andam na boa-vai-ela, mas já agora aqui fica o aviso em relação aos tais coelhos e aos ovos, que o material de que são feitos pode ter uma cor semelhante mas não é certamente chocolate, e se se puserem a prová-los depois não venham cá dizer que não avisei.
