
A ria estende-se à minha frente
e há uma esteira mais clara
que ora se afasta ora se aproxima,
ao sabor de uma corrente que quase não há.
No meio das rochas descubro gente,
homens e mulheres, de olhos baixos,
que procuram sem saber bem o quê,
certamente o mistério da vida ali não o encontram,
enterrado na areia, mas quem sabe;
não falam, dizem coisas pela boca fora,
que podem ser palavras, frases,
“la niña se fué por arriba”,
e há um pequeno bote de amarelo berrante
com mais homens e mulheres lá dentro,
que se diverte a navegar para a frente e para trás,
agora já não restam mais ilhas para descobrir,
o mundo todo sabe onde ficam as gentes,
e a televisão já lá esteve para as filmar.
No casario, ao longe, brilham umas quantas janelas,
quase nada se ouve, nem sequer o mar,
que aqui é um enorme lago de água salgada.
Afasto o calor, escondo-me na sombra,
e ponho-me aqui a imaginar outros silêncios,
não sei que vida haverá depois deste sossego.