
Nos últimos tempos tinha decidido envolver-se mais na generalidade das suas propriedades e - diga-se de passagem – também nas alheias. Começou a encarar aquilo mais a sério, pelo menos era esta a sua opinião, e a planear de acordo com a sua visão global do território. Promoveu a criação da uns jardinzinhos por todo o lado e colocou uma pessoa da sua confiança a administrá-los; ou melhor, algumas equipas de pessoas da sua confiança a administrá-los. Choveram protestos daqui e dali, mas a coisa avançou porque ele achava que assim é que estava bem, que aquilo é que ia fazer com que todos vivessem felizes e contentes.
Depois vieram os problemas. De um lado que queriam plantar mais camélias, do outro que o que queriam eram azáleas, uns que eram mais a favor de roseiras, outros achavam que árvores de fruto era o que mais se enquadrava na paisagem para não destoar do resto e aliás era tradição, de enfiada vieram as couves, repolhos, feijoeiros, alfarrobeiras, e até havia um iluminado que pretendia à força palmeiras por todo o lado, e árvores de frutos tropicais, que assim é que era bonito de se ver, e os turistas haviam de gostar. Foi uma balbúrdia completa. Criaram-se gabinetes de estudo em tudo o que era sítio, contrataram-se especialistas e outros nem por isso, uma data de gente que passava a vida a entrar às nove e a sair às cinco e agarrada aos computadores e aos telefones de manhã à tarde, na jogatina e nas salas de conversa, ou na conversa pura e simples, havendo ainda umas variantes de mensagens escritas para trás e para diante, para os namorados e as namoradas, os maridos e as mulheres, a família que estava emigrada na Venezuela ou na África do Sul, e um espertalhão chegou mesmo a montar uma negociata pela Internet que até nem lhe ia correndo nada mal, tudo à conta dos tais gabinetes de apoio ao desenvolvimento dos jardinzinhos.
Havia um gabinete de advogados contratados a peso de ouro para verificar se as leis ainda eram as mesmas que eram dantes, engenheiros que faziam uns projectos que mais tarde iam parar à gaveta porque se verifica que não estavam de acordo com as tais das leis que os advogados diziam que eram as que valiam, arquitectos que arquitectavam umas coisas nas horas vagas dos trabalhos que faziam por conta própria, mais uns tantos paisagistas que percorriam os jardinzitos e aventavam de vez em quando umas hipóteses mirabolantes a que ninguém ligava, uma multidão de assessores que se pavoneavam pelos corredores e se refastelavam em escritórios com ar condicionado ou com aquecimento central e que se queixavam permanentemente das telefonistas porque não lhes faziam as ligações para os restaurantes a tempo e horas, uma data de contabilistas que faziam as contas das despesas destes restaurantes, dos automóveis alugados em sistema de leasing, do ares condicionados, dos aquecimentos centrais, das viagens dos paisagistas, dos arquitectos, dos engenheiros, dos advogados, dos amigos dos advogados e dos engenheiros e dos arquitectos e dos paisagistas, mais uma equipa alargada de motoristas que zelavam para que os automóveis alugados em leasing não sofressem grandes desgastes para que mais tarde pudessem ser comprados por tuta e meia pelos paisagistas, pelos arquitectos, pelos engenheiros, pelos advogados, pelos assessores, pelos administradores, pelos parentes e amigos desta gente toda e, quando calhava e sobrava alguma coisa, pelas secretárias e pelos amigos das secretárias.
Os jardinzitos lá iam murchando a pouco e pouco, as pessoas nem metiam lá os pés com medo de estragar as coisas, e muito menos levantavam a voz porque havia sempre uma corja de informadores disfarçados que comunicavam superiormente sempre que lhes chegava aos ouvidos que este ou aquele andava por aí a dizer mal dos jardins, porque etecétera e tal, quem era apanhado ia passar uns dias à esquadra, levava umas bofetadas para acalmar, e era posto na rua com alguns avisos, que mais valia prevenir do que remediar.
Depois de tanto prejuízo e de tanta gente a viver à conta, o homem mantinha-se na sua obstinada senda da generalização dos canteiros de flores, nem que chovessem canivetes. Com a banca a bater-lhe à porta, com os comissários a fazerem-lhe comichão aos ouvidos dia sim, dia sim, os jardins eram para continuar, nem que fosse tudo raso. O pior é que foi, apareceram-lhe os credores e os fiscais à porta a exigir-lhe o pagamento dos juros dos empréstimos e contenção nas despesas, isto afinal não era a da Joana nem ainda tinham chegado à Madeira, apesar de tantos gabinetes havia ainda mais gente desempregada, e os jardins afinal serviam para quê se toda a gente tinha medo de lá meter os pés?
No dia em que finalmente se resolveram a fazer o ponto da situação, se é que as situações têm pontos e não vírgulas, já agora por que não pontos e vírgulas, o homem foi dado como sofrendo de distúrbios mentais, meteram lá outro no lugar dele, que mal se sentou na cadeira veio logo com ideias brilhantes. Os tais de jardins por tudo quanto era sítio já tinham dado o que tinham a dar, agora pegava-se era naqueles gabinetes todos e vinha tudo para a capital, que estava despovoada e os advogados, os engenheiros, os arquitectos, os paisagistas, os assessores, as telefonistas, os motoristas e – sobretudo – os carros faziam mais falta na cidade, onde é que já se tinha visto tanta gente espalhada por aqui e por ali, mais valia ter tudo à mão que era mais fácil de ter debaixo de olho.